Mesmo com simplicidade na produção e baixo uso de tecnologias, Austrália consegue se destacar
* Juliana Sesana
No final de 2007 tive a oportunidade de visitar diversas fazendas de produção de gado de corte na Austrália, com o apoio do Department of Primary Industries and Fisheries.
O local visitado foi o Estado de Queensland, onde se concentra a maioria do gado de corte do país. O gado foi introduzido no estado há 70 anos e desde então os produtores de carne dedicaram-se a atender as necessidades de cerca de 100 mercados. Já a introdução do Brahman ocorreu bem depois, com maioria das importações ocorridas na década de 80, mas hoje, cerca de 50% de todo rebanho australiano já possui composições da raça.
Estivemos reunidos com Sarah Strachan, Training Team Leader – Meat Standards Austrália, da Meat and Livestock Australia Limited (MLA), que é uma empresa sem fins lucrativos que presta serviços a produtores, exportadores, supermercados, varejistas e até restaurantes. O MLA tem mais de 43 mil produtores membros. Sua missão é oferecer serviços e parcerias entre a classe mundial, produtores e governo. Suas principais atividades são a melhoria do acesso ao mercado para os produtos (carne vermelha, bovina, caprina e ovina), a investigação e o desenvolvimento para proporcionar vantagens competitivas para a toda a cadeia produtiva da carne australiana.
É também responsável pelo fundo para desenvolvimento das pesquisas, descrição de produtos e sistemas de classificação da indústria.
É financiado por parcelas pagas pelos pecuaristas sobre todas as vendas de animais ($ 5,00/animal) e outra pelo governo (mais ou menos o mesmo valor financiado pelos pecuaristas). Realiza programas conjuntos com a indústria processadora de carne e a exportadora de animais vivos nas áreas de promoção e de pesquisa.
Isso foi uma das grandes diferenças que vi entre o Brasil e a Austrália. O MLA consegue ser extremamente agressivo e objetivo quando se trata da carne vermelha. Age em todos os segmentos, principalmente no marketing da carne, tanto com folders internacionais quanto nas gôndolas dos supermercados, ensinando a dona-de-casa a preparar determinados cortes de carne. No Brasil temos boas iniciativas parecidas, mas são muito dispersas e sofrem principalmente por não terem investimentos nem mesmo parecidos. Além disso, a cadeia produtiva brasileira não lhes dá a devida importância, o que é muito diferente na Austrália, pois são vistos como indispensável em toda a cadeia.
Apesar da Austrália ser uma ilha e ter vantagens significativas na área de biossegurança, grande parcela de sua produção, como no Brasil, também é afetada pela sazonalidade, pois a maioria é produzida em condições de pastagens. Por isso, esse esforço australiano é um dos fatores responsáveis para que o país consiga exportar cerca de 65% de toda a sua produção.
Outro ponto que me chamou muito a atenção e que reforça a credibilidade da carne Australiana é seu sistema de rastreabilidade. O Sistema Nacional de Identificação Pecuária foi introduzido recentemente no país, mas já iniciou como obrigatório. Hoje todo o rebanho é equipado por identificação eletrônica e registrado em uma base nacional de dados. Além disso, também é obrigatória a identificação eletrônica (o chip custa mais ou menos $3,00/animal, fora o escaner), mas o sistema é simples e sem burocracias. Todos os movimentos do gado de uma propriedade para outra devem ser informados ao banco de dados nacional pelo escaneamento do gado a ser removido, transmitindo a identidade do indivíduo. Esse trâmite é feito por quem compra os animais e, por ser eletrônico, não tem como haver fraudes ou erros. Os únicos papéis necessários para quem vende são as notas fiscais que funcionam como uma GTA (Guia de Transporte Animal) e a guia paga para o MLA de $5,00/cabeça vendida. O mesmo ocorre para vendas para frigoríficos. O chip é colocado antes da desmama dos animais e os dados são cadastrados pelo produtor via Internet.
As propriedades são de mão-de-obra familiar, principalmente pela dificuldade de encontrar mão-de-obra qualificada. Além disso, a mão-de-obra representa grande parcela dos custos de produção. Um campeiro, por exemplo, recebe em torno de $130,00/dia ou mesmo $20,00/hora trabalhada. Isso também é um dos fatores limitantes para intensificação do uso de novas tecnologias, sendo a inseminação artificial uma delas.
Entretanto, esse fato também proporciona maior objetividade no negócio pecuário. As criações são totalmente voltadas para o mercado e as únicas tecnologias aplicadas possuem também essa finalidade, desde a genética e cruzamentos empregados a campeonatos em exposições. Mais uma vez, isso também os diferencia. Nenhum animal é mantido na fazenda pelo fato de ser bonito, filho de fulano ou por estar na “moda”. São mantidos aqueles que lhes dão maior retorno econômico. A premissa é ter retornos de 15 a 20% ao ano sobre o capital com a produção.
Uma das tecnologias bem empregadas na Austrália é a seleção de animais por assistida marcadores moleculares. O melhor mercado australiano é o Japão e a maioria do gado que se destina a ele precisa ser terminado em confinamentos. Como são poucos os produtores que possuem confinamento com capacidade suficiente, muitos animais são enviados a confinamentos alugados ou boitéis. Para melhorar a eficiência e a lucratividade, são realizados previamente nas fazendas testes de marcadores moleculares para diversas características em lotes destinados ao abate e somente são enviados para esses confinamentos os melhores animais, principalmente os que possuem características de rendimento de carcaça e marmoreio.
Segundo os produtores, isso traz um bom retorno econômico, pois chegam a receber cerca de $ 3,60/quilo de carne de animais de 0 a 2 dentes com 320 a 340 quilos de carcaça e de 7 a 22 mm de gordura de cobertura (mais ou menos 100 dias de confinamento) para o mercado japonês. Somente uma pequena parcela dos animais atinge essa classificação, por isso, uma pré-escolha com ajuda dos marcadores é importante. Em animais para abates chegam a dar retorno de 15 a 30%.
* Juliana Sesana é zootecnista da Agropecuária Jacarezinho, empresa rural de Alexandre Grendene, com propriedades em Valparaíso (SP) e Cotegipe (BA).